O lado escondido de todas as coisas

Publicada por José Manuel Dias



Como a célebre borboleta que agita as asas num continente e acaba por provocar um furacão do outro lado do mundo, Norma McCorvey alterou espectacularmente o curso dos acontecimentos sem o querer. Tudo o que ela queria era fazer um aborto. Era uma mulher de vinte e dois anos, pobre, sem educação, sem qualificações, alcoólica, toxicodependente e já tinha dado dois filhos para adopção e, nessa altura, em 1970, ficava novamente grávida. Porém, no Texas, como em todos os estados naquela época, o aborto era ilegal. A causa de McCorvey foi adoptada por pessoas mais poderosas do que ela. Essas pessoas fizerem dela a litigante principal numa acção judicial que pretendia legalizar o aborto. O réu era Henry Wade, procurador do Distrito de Dallas. O caso acabou por chegar ao Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos, tendo por essa altura o nome de McCorvey sido escondido sob o pseudónimo de Jane Roe.
No dia 22 de Janeiro de 1973, o tribunal decidiu a favor de Roe, permitindo que o aborto fosse considerado legal em todo o país.
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Mas como é que este processo desencadeou uma geração depois, a maior queda de criminalidade registada na história?
No que diz respeito ao crime, acontece que nem todas as crianças nascem iguais. Nem sequer parecidas. Décadas de estudos mostram que uma criança nascida num ambiente familiar adverso tem mais probabilidades do que outras crianças de vir a tornar-se um criminoso. E os milhões de de mulheres com maiores probabilidades de abortar na sequência do processo Roe contra Wade - mães pobres, solteiras e adolescentes para quem os abortos ilegais eram, antes, demasiado caros ou muito difíceis de conseguir - eram, em geral, modelos de adversidade. Eram as mesmas cujos filhos, se tivessem nascido, teriam muito mais probabilidades que a média de se tornarem criminosos.
In "Freakonomics - O estranho Mundo da Economia", Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner, Editorial Presença, Lisboa ( 2006)

3 comentários:

  1. José Manuel Dias disse...

    Com o intuito de dar um adequado enquadramento a este post, entendo por bem referir o que preconiza a Organização Mundial de Saúde : " Os governos têm de avaliar o impacto dos abortos inseguros, reduzir a necessidade de abortar e proporcionar serviços de planeamento familiar alargados e de qualidade; deverão enquadrar as leis e políticas sobre o aborto tendo por base um compromisso com a saúde das mulheres e não com base nos códigos criminais e em medidas punitivas."

  2. vero disse...

    Olá, passei p deixar um beijo***

  3. Maréchal Ney disse...

    Zé:

    Tenho participado por imposição da cidadania neste debate da IVG, e,no contexto do proximo plebiscito.
    Esta questão, no meu entender resolver-se-ia no âmbito da AR.

    Mas, reconheço que o debate pode ter uma função pedagógica importante, e pode até ser determinante na formatação de uma nove atitude política do nosso eleitorado para os próximos referendos,
    E,ganhando o sim, o que é previsível, utrapassar-se-ia uma questão importante e de carácter imobilista.
    Porque muito frequentemente é mais fácil dizer não para deixar estar tudo como está, do que dizer sim, e ter de participar na mudança.

    A referência que faz ao acontecimento dos EUA, sugere-me estarmos perante um país, com todas aquelas suas disfunções imperialistas que lhe reconhecemos, até é democrático. Porque as suas estruturas judicias, as suas instituições, já naqueles tempos eram muito fortes e eficazes.

    Entretanto, até me recordei do Watergate.


    Do
    Marèchal Ney